13.2.18

Cardo manso dos calcários


Klasea nudicaulis (L.) Fourr.



A família das asteráceas, que inclui malmequeres, cardos e algumas ervitas que diríamos insignificantes, totaliza mais de 30000 espécies e é a mais numerosa e variada à face da Terra. Há quem defenda que esse galardão cabe à família das orquídeas, ou que ele deve ser partilhado ex aequo pelas duas famílias, mas a discrepância de opiniões sobre os limites de cada espécie leva a que seja impossível tirar uma conclusão aceite por todos. Como entre os aficionados de orquídeas qualquer pequena variação leva ao reconhecimento de uma nova espécie, e essa prática não costuma ser seguida pelos adeptos de cardos e malmequeres, é de crer que o número de espécies de orquídeas esteja muito mais inflacionado que o de asteráceas. Justifica-se assim o nosso voto na primazia das segundas.

Dentro da grande família das asteráceas, cardos e malmequeres correspondem a duas das tribos mais bem representadas na flora europeia. Em ambos os casos, as flores são diminutas (é mais apropriado chamar-lhes florículos) e estão reunidas em capítulos. Nos malmequeres, os florículos são de dois tipos: os tubulares, que formam o disco central; e os ligulados, que dão as (impropriamente chamadas) pétalas (ver foto). Na tribo Cynareae (é esse o nome pomposo da tribo dos cardos e afins), os florículos são todos semelhantes; e, como se pode comprovar nas fotos acima, têm um aspecto bem diferente daqueles que compõem os capítulos dos malmequeres.

Na tribo dos cardos, que acolhe géneros tão agressivos e não-me-toques como Carduus e Onopordum, nem todas as espécies são espinhentas, e como exemplo de cardo-manso serve bem esta Klasea nudicaulis que encontrámos num prado em terreno calcário pedregoso algures na Cantábria. Trata-se de uma herbácea vivaz, quase glabra mas por vezes com folhas de margens ciliadas, com caules erectos e simples de não mais que 60 cm de altura, rematados por um único capítulo. As folhas basais são numerosas, largas e com o nervo central bem marcado; as caulinares, que existem apesar do epíteto nudicaulis, são poucas e quase lineares.

A Klasea nudicaulis está muito disseminada pelo norte e oeste de Espanha, e a sua distribuição global abrange ainda os dois lados do Mediterrâneo ocidental: França e Itália a norte, Marrocos a sul. A sua ausência em Portugal é compensada pela presença, nos calcários do centro e sul do país, da endémica Klasea baetica subsp. lusitanica.

Embora tenha sido criado em 1825, só no século XXI é que o género Klasea ganhou aceitação generalizada, acolhendo uma série de espécies antes arrumadas no género Serratula mas divergindo genética e morfologicamente da S. tinctoria, única espécie ibérica que sobrou da debandada. A diferença que mais salta à vista é que as hastes da S. tinctoria são ramificadas, encimadas por numerosos capítulos.

7.2.18

Erva de quebrar castelos



Petrocoptis pyrenaica subsp. glaucifolia (Lag.) P. Monts. & Fern. Casas



Arrumaríamos esta planta na prateleira do género Silene, como fez Mariano Lagasca que, em 1805, a designou Silene glaucifolia, se tivéssemos acesso apenas a fotos, sem poder notar como a planta é bastante mais pequena do que as silenes que conhecemos (não vai além dos 30 cm de altura) e como são igualmente diminutas as folhas glaucas e as flores, ainda que estas se reúnam em cimeiras muito vistosas. Se atendêssemos ao significado do nome do género onde ela se acolheu em 1988, por proposta de Pedro Montserrat e Fernández Casas, a estranheza não seria menor. É que Petrocoptis significa, em grego, o mesmo que Saxifraga em latim, resultando da junção de pedra (petro, saxi) e fissura (coptis, fraga). Mas a taxonomia não dá licença para estas traduções, e é certo que a planta das fotos, ainda que muito distinta das saxífragas, aprecia como estas as fendas de rochas, que preenche dando a impressão de ter sido capaz de abrir caminho na pedra. Apesar do aspecto frágil, é perene, com as plantas mais antigas formando uma base lenhosa. Gosta de penumbra e de substrato calcário seco, e a floração resiste até meio do Verão.

A espécie P. pyrenaica admite três variantes que foram promovidas a subespécies, distinguindo-se a P. pyrenaica subsp. glaucifolia, que é endémica da cordilheira cantábrica, das outras duas por não ter uma roseta basal de folhas. A distribuição em altitude é outro pormenor curioso desta subespécie. Há registos da presença dela entre 0 e 2000 metros de altitude, afirmando a Flora Ibérica que, em geral, as pétalas nos exemplares que ocorrem em regiões mais altas são esbranquiçadas, sendo cor-de-rosa ou mesmo púrpura nas mais baixas. O nosso passeio nas Astúrias para observar estas plantas fez-se entre os 600 metros (pela estrada muito arborizada que circunda a barragem de La Malva) e os 900 metros da Senda del Oso. Uns 80 km a sul, já na província de Léon, um desvio no percurso de regresso levou-nos ao castelo de Cornatel, em cujas muralhas vive uma outra versão da planta, a P. pyrenaica subsp. viscosa.


Castelo de Cornatel & Petrocoptis pyrenaica subsp. viscosa (Rothm.) P. Monts. & Fern. Casas

30.1.18

Madressilva dos ossos



Lonicera xylosteum L.



Ensina o Stearn's Dictionary of Plant Names for Gardeners que xylosteum deriva das palavras gregas xylos, que significa madeira, e osteon, que significa osso. Quereria Lineu dizer que esta madressilva tinha ossos de madeira? Estaríamos então perante nova amostra do pioneirismo do pai da taxonomia, pois o boneco Pinóquio só foi criado por Gepeto cem anos mais tarde. Confessamos, no entanto, que a expressão "ossos de madeira" nos parece uma redundância quando aplicada a árvores ou arbustos. Afinal, se admitirmos, num rasgo de fantasia, que tais criaturas vegetais são providas de ossos, de que outro material poderiam eles ser feitos? Talvez invertendo a ordem das palavras, traduzindo xylosteum por "madeira de osso" em vez de "ossos de madeira", a coisa fique mais inteligível. Terá este arbusto uma madeira especialmente resistente, rija como os ossos? É que, ao contrário das madressilvas espontâneas em Portugal, a Lonicera xylosteum, que fotografámos na Cantábria, não é uma trepadeira, mantendo-se de espinha erguida sem o apoio de muletas. Não é esta porém, nem na Europa nem na Península Ibérica, a única madressilva de porte erecto, como Lineu, que deu nome a três outras espécies arbustivas do género (Lonicera alpigena, L. pyrenaica e L. nigra), não poderia deixar de saber. Põe-se então a hipótese de a Lonicera xylosteum ser, das quatro madressilvas arbustivas baptizadas por Lineu, aquela cuja madeira é a mais dura de roer. O que infelizmente não é verdade, pois os seus caules são ocos e os da L. nigra, por exemplo, são maciços. Ainda que se possa alegar que os ossos, apesar de rijos, também costumam ser ocos, isso é já muito rebuscado e leva-nos, por ora, a desisitir de entender Lineu.

As madressilvas dão flores muito perfumadas, atraem multidões de insectos e, por altura da frutificação, são avidamente visitadas pelos pássaros. Jardineiro que lhes dê espaço no seu jardim transforma-se de imediato num amigo da natureza. Apesar de o tamanho modesto das suas flores poder desencorajar o cultivo, a Lonicera xylosteum partilha de todas as boas qualidades das suas congéneres, com a vantagem de o seu hábito de crescimento se prestar à formação de sebes. É um arbusto que atinge 1 a 1,5 metros de altura, e cuja floração e frutificação decorrem entre Maio e Agosto. Nativo de grande parte da Europa, vive em clareiras de bosques caducifólios húmidos, sobre substratos básicos, em zonas de montanha.

24.1.18

Flor sem maquilhagem

É raro que, vendo uma flor bonita ou tocando numa folha macia, não tentemos cheirá-las para guardar esse dado na memória. Curiosamente, não é fácil descrever um aroma (ora tente dizer como é o da laranja), embora seja trivial reconhecê-lo quando está presente. Acontece o mesmo com muitos dos ingredientes deste mundo, sejam eles cores, texturas ou sons, para os quais há nomes em muitas línguas mas que não conseguimos definir com exactidão. Não são abstracções, como os números ou os electrões, mas também não nos parecem tão reais como o dia ou a chuva. Por isso, muitas vezes falamos do amarelo-limão, do verde-alface ou do preto-andorinha, e com uma palavra extra a cor ganha forma ou sabor, e uma outra existência.


Saxifraga paniculata Rydb.



As flores cor-de-pérola que hoje vos mostramos, na ponta de hastes florais de uns 30 cm, são de uma das espécies mais charmosas do género Saxifraga. Nem é tanto pelas panículas de flores, bem menos maquilhadas que as da S. spathularis; é que as folhas de margens debruadas a branco-de-sal parecem ter dentinhos, num arranjo sorridente em roseta que parece feito por florista inspirada. Esta espécie é perene, e ocorre na América do Norte, Gronelândia e montanhas do centro e sul da Europa, em geral acima dos 1000 m. Os exemplares da foto são do Parque Natural Saja-Besaya, na Cantábria.

Custa revelar esta contabilidade que nos desfavorece, mas há que reconhecê-lo: em Espanha há mais de sessenta espécies de Saxifraga, género que parece apreciar o frio em fissuras e rochedos de montanha. Em Portugal continental, só nove espécies se adaptaram ao nosso clima mais ameno, algumas delas em populações escassas. Temos, porém, o galardão de possuir uma espécie endémica, a S. cintrana.

Talvez este ano voltemos ao norte de Espanha para ver a magnífica S. longifolia e rever a única que conhecemos com flores cor-de-rosa.

16.1.18

Viagens com musgos


Huperzia selago (L.) Bernh. ex Schrank & Mart.



Por ser parecida com um ramo de abeto (fir) e no seu primivitismo lembrar um musgo, os anglo-saxónicos chamam fir clubmoss a esta planta. Se a comparação com o abeto é apropriada e inocente, pois ninguém vai confundir estas hastes atarracadas, de 5 a 20 cm de altura, com um árvore de grande porte (nem com um rebento, pois as árvores não crescem curvadas), já o chamar-lhe musgo pode induzir em erro. Há de facto musgos, como o Polytrichum comune, com aspecto vagamente semelhante, mas a H. selago é uma planta vascular e não um musgo. Situa-se, é verdade, na base da árvore evolutiva, e tem por isso o privilégio de encabeçar a listagem da flora de muitos dos países dos quais é nativa. Na Europa continental, onde é a única espécie do seu género, essa primazia é incontestada, mas na Ásia e na América já tem que disputar o seu lugar com numerosas congéneres. Preferindo climas frios e lugares húmidos, é mais abundante no norte da Europa do que no sul, onde se refugia em áreas montanhosas e, às vezes, aproveita o aconchego da neve a mais de 2000 metros de altitude. Está presente nas principais cadeias montanhosas ibéricas, mas Portugal fica fora do seu mapa de distribuição. O que não é grande motivo de queixa, pois Madeira e Açores acolhem duas espécies endémicas do género, Huperzia dentata e Huperzia suberecta, e a segunda delas só se diferencia da H. selago pela (pouco) maior envergadura e por caracteres microscópicos como a ornamentação dos esporos.

Uma característica em que a Huperzia é mais primitiva do que outras licopodeáceas é que a sua parte fértil não se distingue claramente da parte estéril: os esporângios estão aninhados nas axilas das folhas terminais das hastes (3.ª foto), folhas essas idênticas na forma e no tamanho às que estão situadas mais abaixo. Em géneros mais evoluídos, como Lycopodium e Diphasiastrum, os esporângios aparecem agrupados em espigas terminais perfeitamente destacadas (exemplos: 1, 2). Mesmo o licopódio-dos-brejos (Lycopodiella inundata), que na Europa leva a medalha de prata em primitivismo, apresenta uma diferenciação, embora menos óbvia, entre a parte da planta que produz os esporângios (que é a porção engrossada e terminal das hastes erectas - foto aqui) e a parte estéril (caules rastejantes e metade inferior das hastes erectas). Também considerado primitivo é o tipo de crescimento dicotómico da Huperzia, com as hastes sempre ascendentes bifurcando-se sucessivamente.

Encontrámos a Huperzia selago a uns modestos 1300 m de altitude, algures na cordilheira cantábrica. Nos meses de Inverno o branco dos afloramentos calcários é reforçado pelo branco da neve, e nenhuma outra cor é permitida na paisagem. Era isso que nos diziam um frio e um vento cortantes, atípicos do mês de Maio que atravessávamos. Só para confirmação, as nuvens negríssimas não tardaram em largar uma forte carga de granizo, obrigando-nos a abreviar a excursão.

9.1.18

Globos azulibrancos

Por razões misteriosas, aprendemos tão bem e estamos tão habituados a reconhecer formas tridimensionais que, quando as vemos fotografadas, julgamos detectar volumes e sombras em imagens que, sendo planas, não os possuem. O centro que interpreta o que vemos é perfeito para ser enganado. Este logro, que é afinal um acerto, é uma das razões do sucesso da fotografia. Por vezes, nem temos dúvidas de que uma foto é mais nítida e completa do que a realidade. E todavia, sem referenciais, as fotos podem ser maus testemunhos. Nas que lhe mostramos hoje, o ponto de apoio é dado pelas flores. São de igual tamanho e aspecto em ambas as plantas, por isso pode deduzir-se destes retratos que a folhas da primeira são muito maiores do que as da segunda. Além disso, uma das plantas é lenhosa e vive colada à rocha exposta de calcário, enquanto a outra, em rochedo próximo mas recatada numa fissura, é herbácea e exibe pecíolos longos e hastes florais proeminentes, na extremidade das quais oscilam sedutores capítulos de florinhas azuis.



Globularia nudicaulis L.





Globularia repens Lam.



É um enigma que espécies distintas do mesmo género coexistam independentes num mesmo habitat. Mas a crer em algumas simulações de jogos, não é garantido que, florescendo ao mesmo tempo e a poucos metros de distância uma da outra, sejam rivais na atracção de polinizadores. O mais certo é que tenham uma estratégia solidária no uso dos bens que o habitat oferece, vencendo em grupo em vez de cada uma arriscar perder individualmente.

Espanha conta com nove espécies de Globularia, algumas de regiões com invernos muito frios (como estas que vimos na Cantábria), ou que preferem taludes rochosos expostos ao sol e à secura ou que, pelo contrário, dão primazia à proximidade de cursos de água. Com preferências tão variadas, dir-se-ia ser um género de distribuição vasta. Por cá, porém, só há registo de duas espécies, e são ambas raras.

2.1.18

Na senda do urso



"Trilho do urso" seria a tradução correcta de "senda del oso". Como fazem todos aqueles com uma relação difícil com línguas estrangeiras, fiamo-nos nos falsos amigos e optamos pela tradução fonética. Dizendo que estivemos "na senda do urso", damo-nos ares de intrépidos exploradores da vida selvagem, sugerindo que andámos deliberadamente no rasto do bicho.

Na verdade não foi bem assim. A "senda del oso", nas Astúrias, é um percurso ciclável, recomendado para toda a família (humana, não ursina), que decorre em grande parte numa antiga linha férrea mineira. Tal como quem visita as Terras do Lince não espera dar de caras com o felino, pois ele já lá não está e se estivesse não era para se mostrar, também quem percorre o "trilho do urso" sabe que, havendo embora ursos nas Astúrias, eles preferem trilhos mais recatados, longe da nossa vista. É pois esse o percurso ideal para quem, visitando as Astúrias, queira ter a garantia de que para ele os ursos continuarão a ser apenas aquelas criaturas fofas dos programas de David Attenborough.

Se não foi para ver ursos, ou se foi até, usando de maior franqueza, para não ver ursos, que temos nós para contar ao internauta apaixonado pela natureza à distância de um clique? Ouvimos um restolhar na folhagem que bem poderia ser um esquilo, mas deve ter trepado ligeiro por alguma árvore (uma faia, pois só havia faias) e não chegámos a vê-lo. As faias e as plantas em geral não são esquivas como os animais, nem enganadoras como as paisagens (que nos puxam adiante mas nunca conseguimos alcançar, como a linha do horizonte ou o lado de lá do arco-íris.) Falemos então de uma das plantas que vimos nos mil metros da "senda del oso" que percorremos desde o desfiladeiro de Teverga.

Phyteuma spicatum L.




Aquando de uma anterior visita ao norte de Espanha, apresentámos aqui uma espécie de Phyteuma, género da família das campânulas que tem zero representantes na flora portuguesa, cinco na peninsular e mais de vinte na europeia. As flores, agrupadas em espigas ou capítulos, têm uma forma muito característica, com as pétalas soldadas na ponta formando um tubo alongado; quando ainda fechadas, fazem lembrar um cacho de bananas. Phyteuma hemisphaericum, que vimos antes, é uma planta alpina, de estatura baixa e folhas lineares, que espera pelo degelo para surgir em fissuras de rochas e em prados. Phyteuma spicatum, por contraste, é uma planta alta (até 1 m de altura), com folhas basais largas, que vive a altitudes moderadas na orla de bosques caducifólios húmidos. Tanto no trilho do urso como nos vários pontos na berma da estrada onde depois a encontrámos, só a vimos de flores azuis, mas ela também dá flores brancas, que aliás são preponderantes nas populações extra-peninsulares. É estimada como ornamental, e são poucos os países da Europa onde ela não ocorre: Portugal, Irlanda, Grécia e (só para confundir o retrato) Bélgica.

19.12.17

A prímula mais alta


Primula elatior (L.) Hill



As convulsões que têm afligido Espanha, ameaçando a sua integridade, são o resultado inevitável das más partilhas feitas pelos primeiros reis ibéricos. Na senda da deriva independentista da Catalunha, veio há semanas a público uma proposta do parlamento andaluz de se criar uma Grande Andaluzia, agregando-se à província com esse nome os demais «países andaluzes»: Múrcia, Algarve e Alentejo. Portugal não deve ficar mudo e quedo face a estas pulsões expansionistas que ameaçam reduzi-lo e retalhá-lo. Sim, deve afirmar desde já a vontade firme de anexar a Andaluzia -- ou, em versão diplomática, a calorosa disposição de acolher a Andaluzia e as suas gentes, se elas enveradarem por uma trajectória secessionista face a Madrid. Mas não deve ficar por aqui. Que a Galiza não faça parte de Portugal é um erro crasso denunciado há muitos séculos por patriotas portugueses e galegos. Este é o momento de agir: Portugal cumpre o seu destino histórico e, ao mesmo tempo, remedeia a sua vergonhosa penúria em espécies do género Primula.

Os números são de uma triste eloquência: temos uma única espécie, Primula acaulis, quando, sem contar híbridos nem subespécies, em Espanha há oito, na Europa 33, e na China e Himalaias mais de 300. Unindo-nos à Galiza passaríamos a ter três. Sem ser bom, ajudaria a atenuar a injustiça. A mais alta das prímulas (é isso que garante, com algum exagero, o epíteto específico), Primula elatior, faria parte do enxoval, acompanhada pela Primula veris (se o seu latim anda tremido, saiba que aquele veris não significa que esta prímula seja mais verdadeira que as outras, mas sim que floresce na Primavera, como aliás fazem quase todas). Ficaríamos ainda privados desta jóia, mas ganharíamos alento para novas conquistas.

A P. elatior, que encontrámos nas Astúrias e na Cantábria, é mais frequente no norte de Espanha, ao longo dos Pirenéus e da cordilheira cantábrica; no resto da Península, só aparece na serra Nevada e, muito esporadicamente, em algumas serras do Sistema Central ibérico (Gredos e Guadarrama). As suas flores são pálidas como as da P. acaulis e surgem agrupadas na extremidade de hastes erectas como na P. veris; as suas folhas muito rugosas, reunidas em roseta basal, são também uma média entre as folhas das duas outras espécies. É natural que se levante a suspeita: será a P. elatior, não uma verdadeira espécie, mas um híbrido da P. verna com a P. acaulis? A resposta é negativa, pois o híbrido entre as duas ocorre naturalmente, acompanhado pelos seus progenitores, em grande parte da Europa; e, como podemos confirmar nesta página, não tem a cara da P. elatior, embora faça lembrar. As flores são mais pequenas, exibem manchas escuras na base das pétalas, e não estão todas viradas para o mesmo lado como sucede na P. elatior; além disso, os cálices são claramente diferentes (compare com a 3.ª foto acima) e as hastes florais mais curtas.

13.12.17

Flores vorazes



Pinguicula grandiflora Lam.



As plantas do género Pinguicula vivem em geral em solos pobres, complementando a dieta com o que de nutritivo vá caindo nas suas folhas rígidas e suculentas. Alguns insectos, julgando ver gotas de água nas glândulas espalhadas na superfície das folhas, aproximam-se delas, descobrindo tarde de mais que a água é afinal uma cola que os aprisiona sem redenção. Uma vez agarrada a presa, as folhas recurvam as margens formando uma taça, e um segundo tipo de glândulas segrega enzimas que digerem o que a planta finalmente absorverá através de minúsculos orifícios. Neste processo, também as folhas se deterioram, mas a planta faz nascer outras sem demora. Para que os polinizadores não sejam comidos por engano, as flores são solitárias e surgem no topo de hastes altas com corolas bastante vistosas. Nunca fiando, as da P. grandiflora são também grandes, as maiores que já vimos neste género, ainda que parecidas com as da P. vulgaris.

Há um outro pormenor que só dissecando uma flor se conseguiria ver. Como já notou pelas fotos, a flor é tubular, com dois lóbulos e um esporão contendo umas gotinhas de néctar. Os estames com o pólen estão escondidos no tubo, e um estigma de duas faces cobre-os como uma tampa. O arranjo é tal que, se uma abelha quiser lamber o néctar ou recolher o pólen, terá de se roçar na face exterior do estigma (a única polinizável), deixando lá o pólen que trouxe de outra flor; pelo contrário, a face adjacente ao pólen não é receptiva, o que impede a auto-fecundação.

Morando habitualmente junto a fontes de água, estas plantas adaptaram-se sabiamente às vantagens (muitos insectos esvoaçantes e incautos por perto) e aos riscos inerentes a uma tal vizinhança. Por exemplo, as cápsulas que guardam as inúmeras sementes podem manter-se fechadas caso haja demasiada humidade no ambiente, o que poderia arruinar as sementes ou impedi-las de se dispersarem pelo vento. Além disso, em algumas espécies as sementes nascem com coletes salva-vidas que lhes permite flutuarem se tombarem na água.

Como todos os prodígios, não há muitas espécies de Pinguicula. Das cerca de oitenta conhecidas (quase todas da América Central e do Sul), só uma dúzia é nativa da Europa, delas ocorrendo nove na Península Ibérica e apenas duas em Portugal.

5.12.17

Saponária dos assobios


Saponaria ocymoides L.



A grande vantagem de planearmos os passeios ao milímetro é podermo-nos desviar vários quilómetros da rota traçada. Se o improviso correr mal, se aquele desvio que por impulso fazemos afinal não se revelar compensador, podemos sempre retroceder e conformarmo-nos com o que estava previsto. O planeado é apenas a rede de segurança, um último recurso para que o passeio valha a pena. Mesmo nesta época dos satélites, do Google Earth e do GPS, os caminhos só se conhecem caminhando, e muitos vezes, quando pisamos o local que antevíramos nas imagens aéreas, percebemos que o melhor de dois caminhos é aquele que não tínhamos mapeado.

Em Maio, na nossa semana de vagabundagem pela cordilheira cantábrica, quisemos visitar a cascata de Las Pisas, em Soncillo, na província de Burgos. O trilho até lá, embrenhando-se por um bosque cerrado, era difícil de adivinhar pelas imagens aéreas, mas pareceu-nos que partiria de Villabascónes, um povoado com cinco ou seis casas convertido ao turismo de habitação. Erro nosso, como poderíamos ter verificado pelo mapa geográfico de Espanha (disponível aqui). Seguimos teimosamente o caminho errado, esperando que ele, dando-se conta do equívoco, guinasse à esquerda e se dirigisse para a cascata. Quando compreendemos que nunca chegaríamos a ela, já tínhamos sido seduzidos pelo ribeiro (arroyo Saúl, informa o mapa) que o caminho insistia em acompanhar, e tornara-se-nos tão impossível retroceder como a um marinheiro arrastado pelo canto da sereia. Havia faias, freixos, amieiros e... tílias, uma novidade para quem, como nós, só as conhecia domesticadas em jardins. Ervas-pombinhas (Aquilegia vulgaris) e madressilvas (Lonicera sp.) acrescentavam azul e amarelo à exuberância do verde; e, nos pontos onde o caminho se afastava do leito encaixado do ribeiro, deu-se o nosso feliz reencontro com o raríssimo (em Portugal) Aphyllanthes monspeliensis, que se empoleirava nos taludes soalheiros.

A certa altura o caminho cruzava um viaduto e desembocava numa estrada, seguindo o exemplo do ribeiro que, no mesmo ponto, desaguava num rio de caudal já respeitável (rio Nela, afluente do Ebro). Quebrara-se o feitiço e já podíamos inverter a marcha. Logo antes do viaduto, atrás do portão de uma casa decrépita, um cão triste ladrava para justificar a existência. Fingindo ir embora, esperámos que ele se calasse para ir, em bicos de pés, fotografar uma planta de flores cor-de-rosa, parecida com um assobio (assim chamamos nós às Silenes), que crescia num muro.

Dar nome à suposta Silene revelou-se intrincado, e o problema só se resolveu quando concluímos que não se tratava de uma Silene. Se fôssemos botânicos conscienciosos (mas nem botânicos somos), uma inspecção à lupa revelaria que a planta tinha apenas dois estigmas em cada flor, enquanto que as do género Silene têm três (ou raramente cinco) -- fotos aqui e aqui. Sendo nós irremediavelmente descuidados, acabámos por nem registar esse detalhe crucial nas fotos. Como iríamos adivinhar estar em presença de uma prima da Saponaria officinalis? Uma planta peluda, de múltiplos caules decumbentes, agarrada a um muro, de flores diminutas: eis um retrato em tudo contrastante com o da erva-saboeira, que é glabra, tem caules erectos, flores e folhas grandes, e cresce em terrenos húmidos.

Em Espanha ocorrem cinco espécies de Saponaria, quatro delas ausentes de Portugal. Vendo-lhes as caras (espreite ao fundo desta página), concluímos que a Saponaria ocymoides, acima ilustrada, se integra bem no conjunto, e que quem mais destoa é a S. officinalis. A S. ocymoides ocorre em grande parte da Europa mediterrânica, desde os Balcãs até Espanha. É uma planta perene de 30 a 50 cm de altura, de base lenhosa nos exemplares mais idosos, que por vezes se apresenta com os caules muito emaranhados. O epíteto ocymoides refere-se à (hipotética) semelhança da planta com o manjericão (Ocimum basilicum).

28.11.17

O verdadeiro sanguinho



Cornus sanguinea L.



A legislação portuguesa permite, a quem o deseje, alterar o seu nome, ainda que o processo exija uma justificação e não seja barato. As razões alegadas são as mais variadas, podendo simplesmente não se gostar do nome que se tem. Na taxonomia das plantas, a obrigação de se usar o nome válido mais antigo não permite tais brios. E, na verdade, mesmo que algumas designações nos soem estranhas, como a que Lineu escolheu para esta espécie, uma consulta ao dicionário revela que tais nomes são até apropriados. E, sendo frequentemente baseados em detalhes morfológicos, servem de etiquetas de memorização fácil e dão uma grande ajuda na identificação de plantas.

A designação Cornus sanguinea parece aludir a uma tragédia amorosa, recheada de traição e infidelidade, mas não se trata disso. Cornus também significa, em latim, cerejeira ou pilriteiro, ou os ramos jovens dessas e de outras árvores semelhantes. Com os das Cornus, tingidos de vermelho, faziam-se outrora varas ágeis e cestos afamados. Em português, o nome vernáculo atribuído a esta espécie é sanguinho-legítimo, para a distinguir de outros sanguinhos, como o sanguinho-de-água (Frangula alnus) ou o sanguinho-das-sebes (Rhamnus alaternus). Poderia chamar-se cornizo, digamos, por analogia com o termo espanhol cornejo, sendo então as bagas negras os cornizolos, mas não seria uma escolha popular portuguesa, para não falar da possível confusão com a cornalheira (Pistacia terebinthus). A palavra sanguinho, bizarro diminutivo para sangue criado para dar nome a uma cor (a da cornalina, um tom de vermelho claro que vemos nos ramos desta Cornus, e na folhagem antes de cair no Outono), parece ser especialmente estimada pelo nosso povo, que a usa amiúde. Em inglês chamam-lhe dogwood, em alusão a uma outra característica desta pequena árvore: a madeira do tronco é dura (como um osso), usada em cabos de ferramentas.

Esta é a única espécie de Cornus que ocorre espontaneamente na Península Ibérica. E, ao contrário de outras congéneres ornamentais de que já aqui falámos (C. florida, C. kousa, C. capitata...) com flores minúsculas esverdeadas agrupadas em inflorescências com brácteas vistosas, a C. sanguinea dá flores mais convencionais, com quatro pétalas brancas e estames salientes, reunidas em cimeiras achatadas. Os exemplares que conhecemos no nosso país (também a vimos, bem mais abundante, na Cantábria) moram em bosques ribeirinhos no concelho de Vinhais. Quase todos os actuais registos da espécie em Portugal são transmontanos, mas ela ainda vai aparecendo no baixo Mondego, em sebes que separam campos de cultivo.