13.6.17

Olho de pássaro

Este ano retornámos à Cantábria, mas viajámos em Maio, dois meses mais cedo do que na visita anterior. Da nossa agenda constavam algumas das espécies de montanha que em Julho de 2015 já só tinham frutos para nos mostrar. Mas desenganámo-nos logo à chegada: é difícil acertar na melhor data para ver esta e aquela flor. Restarão, pois, sempre motivos para lá voltar.

Desta vez, em alguns locais a neve ainda não tinha derretido, e as plantas, cautelosas, aguardavam em folha até que o tempo aliviasse. Exemplo disso foi a Pulsatilla vernalis, que estava em flor, sim, mas teimosamente fechada. Pensámos nisso, mas não cedemos ao impulso de lhe forçar as pétalas; demos mais uma volta pelo Pico Tres Mares para lhe dar tempo de acordar, mas nem assim. Outra desilusão foi a Paris quadrifolia que, abrigada nas fissuras de rocha calcária do Picon del Fraile, tinha a haste floral a assomar mas parecia encolher-se para evitar a chuva fria que entretanto desabou sobre nós. Nos fantásticos bosques de faias, por outro lado, a pressa era outra. A maioria das herbáceas tem de florir enquanto há luz, antes que as folhosas tapem o solo com a sua sombra cerrada. Por isso, em muitos deles (mas não em todos, como vos contaremos), da Hepatica nobilis, da Anemone nemorosa, do Allium ursinum ou da Oxalis acetosela já só havia folhas. Contudo, nas turfeiras de alta montanha (acima dos 1300 metros), a natureza parecia regular-se pelo mesmo relógio que nós. E num terreno muito encharcado, entre inúmeros pés de martaguinho, lá estavam as flores que procurávamos, acabadas de fazer.

Primula farinosa L.


Esta é uma espécie perene que ocorre nas montanhas do norte e centro da Europa até ao Ártico, com plantas baixinhas (3-12 cm de altura, raramente mais) e muito atraentes. Nas flores em tom carmim destaca-se o centro amarelo, numa combinação que a alguns lembra um olho de pássaro. As folhas com formato de colher, unidas numa roseta basal, parecem polvilhadas de farinha (justificando o epíteto farinosa), mas são de facto revestidas a lã-de-prímula para agasalhar a haste floral erecta.

O género Primula parece especialmente bem adaptado a regiões frias, ocorrendo a maioria das 500 espécies em prados ou escarpas abrigadas dos Himalaias, ainda que haja também registo de algumas nas montanhas do norte de África. O nosso clima cálido não parece permitir, nem na serra da Estrela, grande variedade de prímulas, e o contingente por cá reduz-se à P. acaulis.

3 comentários :

José Batista disse...

Uma lindeza!

bea disse...

Mas como são bonitas estas prímulas rasteiras, assim de carmim erecto que seria desafiante se não fora a pouca altura. A descrição do habitat lembra-me a flor das altas montanhas, uma raridade que é referida, suponho, no Ulisses de joyce (mas pode ser noutro livro que já me não lembro).

Viviana disse...



Olá, João!

Tantas "coisas bonitas" por aqui!

Então, estas primulas...

Olhe, não resisti e levei-as comigo para ilustrar um pequeno poema sobre o Amor.
Espero que não se importe.

Claro, que coloquei "a fonte".

Obrigada e, um abraço
Viviana