6.6.17

Dedaleira do Douro


Digitalis amandiana Samp.



A dedaleira é das plantas mais comuns no nosso país, e uma das poucas a que a generalidade dos portugueses sabe dar nome. Aprendemos, ainda crianças, que as dedaleiras são tóxicas, embora de facto só sejam perigosas se ingeridas em doses significativas. É pouco provável que tenhamos alguma indisposição só por enfiar o dedo numa flor (pois ela parece mesmo um dedal) ou por rebentá-la na palma da mão. Nesta época do ano, em que as dedaleiras floridas alegram terrenos baldios e bermas de estrada, cabe lembrar que mesmo uma planta tão corriqueira não é isenta de mistérios. Esses cachos de flores rosadas, bonitos mas gastos aos nossos olhos pela habituação, não podem, em rigor, ser declarados inconfundíveis, porque são várias as espécies que se escondem sob o mesmo aspecto geral. É verdade que aquela que Lineu baptizou como Digitalis purpurea é a mais abundante, mas no interior do país entre o Douro e o Tejo a Digitalis thapsi (dedaleira-peganhenta ou pegajo) faz-lhe aguerrida concorrência, chegando a suplantá-la na prontidão com que coloniza os taludes das auto-estradas. E, em certas zonas do alto Douro vinhateiro, particularmente em Carrazeda de Ansiães, a D. purpurea é substituída por uma espécie endémica da região, a D. amandiana, originalmente descrita por Gonçalo Sampaio em 1905. (A descrição de Sampaio foi reproduzida por Júlio Henriques, em 1906, no vol. XXII do Boletim da Sociedade Broteriana.) Tal como a sua congénere, a D. amandiana dá-se bem em terrenos perturbados, conseguindo assim sobreviver à fúria herbicida com que os vinicultores vêm dizimando a flora espontânea duriense.

Se compararmos a Digitalis amandiana (fotos em cima) com a D. purpurea (em baixo), as diferenças são notórias. O caule da D. amandiana é inteiramente glabro, enquanto que o da D. purpurea é peludo de alto a baixo. As folhas da D. amandiana são glabras, luzidias, estreitas, grosseiramente serradas nas margens -- em completo contraste com as da D. purpurea, que são penugentas, baças, largas, finamente dentadas. A corola da D. amandiana é exteriormente glabra, enquanto que a da D. purpurea está coberta de pêlos. Há também diferenças no cálice: os da D. amandiana são abertos, com sépalas largas e arredondadas; os da D. purpurea têm as sépalas comparativamente estreitas, mais ou menos pontiagudas, e encostadas à corola. Tudo somado, são mais óbvias as disparidades entre a D. amandiana e a D. purpurea do que entre a segunda e a D. thapsi. Não por acaso, são frequentes os híbridos entre a D. thapsi e a D. purpurea nas zonas onde as duas coexistem, mas nunca ninguém reportou um híbrido natural entre a D. amandiana e a D. purpurea.

Contudo, o reconhecimento deste endemismo duriense não tem sido unânime. João do Amaral Franco, que por certo nunca viu a planta, decretou, na sua Nova Flora de Portugal (vol. 2, 1984), que D. amandiana era simples sinónimo de D. purpurea subsp. purpurea. A Flora Iberica (vol XIII, 2009) não cometeu esse erro, substituindo-o por outro um pouco menos grave: considerou que a singularidade da D. amandiana merecia apenas ser reconhecida ao nível de subespécie, ficando ela a chamar-se D. purpurea subsp. amandiana. Não menos plausível, embora igualmente arbitrário, teria sido subordiná-la à D. thapsi, chamando-lhe D. thapsi subsp. amandiana ou, como já sucedeu, D. thapsi var. amandiana.

(Sobre a Digitalis amandiana, leia-se ainda o informativo texto que, em 2009, Carlos Aguiar aqui publicou.)


Digitalis purpurea L.

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