6.12.16

Memória das Índias

Logo à entrada do Parque Natural de Corrubedo (complexo dunar e lagoas de Carregal e Vixán), na Galiza, há avisos mais ou menos explícitos para que cada visitante cumpra todas as directivas que minimizem o impacto da sua presença naquele ecossistema. Mas o excelente estado de preservação deste vasto habitat, que então testemunhámos, não se devia apenas a esta sinalética de advertência. O parque contava com um grupo de biólogos rodeados de Floras que, além de receberem os visitantes esclarecendo-os sobre a biodiversidade que ali poderiam apreciar, garantiam primorosamente a conservação do parque. Alguns de nós tiveram até a ventura de receber uns guias de bolso muito bem elaborados sob a égide da Xunta de Galicia, da Dirección Xeral de Conservación da Natureza e da Consellería de Medio Ambiente e Desenvolvemento Sostible, com informação detalhada sobre aves, coleópteros, anfíbios e répteis, orquídeas e outra flora. Na nossa primeira visita a Corrubedo, demos sobretudo atenção às populações de Epipactis palustris e de Omphalodes littoralis (esta guardada por um verdadeiro polícia), mas, entusiasmados, agendámos uma segunda visita para admirar o resto.

Quando lá voltámos uns anos depois, a equipa de biólogos e vigilantes da natureza tinha sido dispensada, e o centro de atendimento de visitantes encerrara de vez. Lamentámos que o investimento na divulgação e promoção da ciência não tivesse escapado, pela sua importância, ao crivo da austeridade. E, tristonhos, seguimos para a lagoa de Vixán porque íamos à procura da Glaux maritima, uma Primulacea que já terá frequentado os estuários da costa norte portuguesa mas de que não há registos actuais. Sem sucesso, porém. Apesar de termos encontrado vários exemplares da planta que, segundo a foto de um dos livrinhos que nos ofereceram em Corrubedo, é um exemplar de Glaux.




Bacopa monnieri (L.) Wettst.

Mas não é. Trata-se de uma espécie perene de margens de regatos perto do mar, com talos rasteiros, folhas opostas, espatuladas, suculentas e pintalgadas de glândulas, que tem alguma tendência invasora. É famosa (como denunciam as inúmeras designações em inglês: waterhyssop, brahmi, thyme-leafed gratiola, herb of grace, Indian pennywort) em ervanária por conter alcalóides antioxidantes prescritos para fortalecer a memória (ainda que estas virtudes não estejam acima de qualquer dúvida). Mais frequentemente, é usada para ornamentar aquários. Tem uma distribuição cosmopolita, preferindo no entanto regiões tropicais, mas é nativa da Índia, Austrália, parte da Europa, África, Ásia, América do Norte e do Sul. Em Portugal, ter-se-á instalado no Minho, mas nunca lá a vimos e é certamente (ainda) rara.

Crê-se que o epíteto monnieri homenageia Louis Guillaume Le Monnier (1717-1799), um médico e naturalista francês que foi professor de Botânica no Jardin du Roi (mais tarde Jardin des Plantes) em Paris.

29.11.16

Cerefolho bêbado




Chaerophyllum temulum L.

Para quem gosta de arriscar a vida consumindo cogumelos silvestres, as umbelíferas ofecerem mais uma apelativa variante da roleta russa. Há umbelíferas de fama e proveito reconhecidos nas artes culinárias (como a cenoura, a salsa e o funcho, só para mencionar as mais triviais), mas há outras, com o mesmo aspecto geral, que são mortalmente venenosas (como a cicuta e a rabaça). À cautela, mais vale não as levar à boca, pois mesmo quem raramente tem dúvidas se pode enganar, e um engano destes é irremediável.

O cerefolho-bravo (ou cerefólio-bravo) acima ilustrado exemplifica bem os riscos que corre um respigador de plantas silvestres. O cerefólio cultivado (Anthriscus cerefolium) não é, de facto, muito diferente, sobretudo no formato das folhas e dos frutos, mas, enquanto que o segundo é usado como erva aromática, o primeiro é tóxico. Não consta porém que seja mortal em pequenas doses, e a possível confusão entre as duas plantas não resiste ao teste do paladar. É por isso muito improvável a ingestão por humanos do cerefolho-bravo como condimento alimentar. Contudo, ele foi em tempos usado como erva medicinal, e entre os efeitos secundários reportados contam-se um andar cambaleante, apatia, cólicas e (nos casos mais graves) cegueira temporária. A dificuldade em manter a postura vertical assemelha-se à embriaguez, razão para o maroto do Lineu baptizar a planta com o epíteto temulum (ou temulentum), que significa bêbado em latim. Reforçando essa conexão, as manchas cor-de-vinho no caule (fotos aqui) lembram a tez dos alcoólicos inveterados. Iguais manchas decoram as hastes da cicuta (Conium maculatum - ver foto), que, entre outros caracteres, se diferencia do cerefolho-bravo por ser inteiramente glabra.

Abandonada a perigosa ideia de o comer, permanece o desafio de distinguir o cerefolho-bravo de outras umbelíferas aparentadas. Aquelas que lhe é mais próxima, pela folhagem e porte geral, é a salsa-das-vacas (Anthriscus sylvestris). São ambas hirsutas, os frutos são quase indistinguíveis, as hastes podem nos dois casos atingir ou ultrapassar um metro de altura, e as umbélulas são decoradas com as mesmas bractéolas pendentes (compare a 3.ª e 4.ª fotos acima com esta). O modo mais expedito de distinguir as duas é notar que o cerefolho-bravo tem pétalas fendidas (4.ª foto) e que salsa-das-vacas as tem inteiras (foto aqui).

O motivo da nossa simpatia pelo Chaerophyllum temulum, que não sobressai nem pela beleza nem pela utilidade, é que um congénere seu, o Chaerophyllum azoricum, é um raro endemismo açoriano, merecedor do nosso maior apreço. Ensina a etimologia que a palavra graga Chaerophyllum significa "folhas que agradam". Sem que Lineu (que, com esse "agrado", quis referir-se a impressões olfactivas e não tanto visuais) alguma vez o tenha conhecido, a formosura do Chaerophyllum azoricum justifica inteiramente tal descrição.

22.11.16

O futuro é amarelo

Face à tragédia de migrantes e refugiados a que, lamentavelmente, o mundo todo-poderoso não consegue pôr termo, quem deprecia uma espécie exótica, quando ela se revela uma ameaça para a flora endémica de uma região, pode ser apontado como defendendo abusivamente a reserva de um território para os seus habitantes autóctones. Eliminemos, porém, desde já este mal-entendido. Sabemos que não há fronteiras para a fauna ou para a flora, e que declarar uma espécie nativa de um local é uma decisão datada, ainda que tenha fundamento científico. Decerto há plantas em Portugal cujos progenitores terão aqui aportado, vencido a competição com outras espécies e visto alterar-se a sua herança genética pela adaptação a novos polinizadores ou pela colonização de um substrato diferente, tornando-se a pouco e pouco, num processo evolutivo admirável, parte do que hoje, milhões de anos depois, consideramos flora endémica lusitana. O impacto desses imigrantes nos ecossistemas de então seria, por algumas normas actualmente em vigor, comparável à de uma invasão por extraterrestres perigosos. Que razões há então, afora o apelo estético e o interesse botânico, para a erradicação de espécies invasoras, para a listagem cuidadosa das espécies nativas em situação vulnerável e para os programas de conservação, se afinal o futuro pode, sem a nossa (por vezes danosa) intervenção, destinar ao planeta não um deserto mas um coberto vegetal homogéneo, formado por um limitadíssimo número de espécies muito resistentes e bem adaptadas?

Há pelo menos um motivo a que é prudente prestarmos toda a atenção: a sobrevivência da humanidade pode depender, mais do que supõe ou consegue aferir, dos benefícios da biodiversidade. É que tem sido essa variedade biológica e a cooperação entre espécies, num plano de subsistência mútuo, que nos tem garantido alimento, saúde, energia, recursos para a pesquisa tecnológica e a descoberta de novos remédios; e o que poderá assegurar uma resposta eficiente às mudanças no clima. A sustentabilidade da vida na Terra só será possível se os ecossistemas tiverem múltiplos meios de preservar impolutas as fontes de água, de manter a fertilidade do solo arável, de produzir ingredientes variados para a nossa dieta equilibrada, de reciclar os nutrientes do planeta, de travar o declínio dos polinizadores, salvaguardando o seu pacto com as plantas, de renovar as virtudes da nossa atmosfera e, não menos importante, de usufruir da diversidade genética em redutos silvestres.



Vem este arrazoado a propósito de mais uma espécie exótica, originária da América Central e do Sul, que vimos na lagoa de Vixán, na costa da Galiza. Pela sua grande capacidade invasora, a Ludwigia grandiflora é uma forte ameaça a este formoso espaço natural. Herbácea perene, alta, de flores solitárias mas vistosas no Verão e absoluta dependência de solos encharcados, consegue reproduzir-se vegetativamente e aprecia sobremaneira ribeiros de fraca corrente, remansos, arrozais e represas. Os frutos são cápsulas longas com uma coroa de sépalas e sementes firmemente incrustadas, que, mal se libertam, flutuam na água ou se disseminam arrastadas pelo vento. Para travar a propagação da planta, em alguns países da Europa são proibidos tanto a sua comercialização como o seu transporte.



Ludwigia grandiflora (Michx.) Greuter & Burdet

Cremos, porém, que ela não tardará a chegar ao Minho. Das três espécies do género Ludwigia que ocorrem na Península Ibérica, só a L. palustris, de flores muito discretas, é autóctone e tem populações conhecidas em Portugal.

15.11.16

Sapinhos no sapal




Spergularia marina (L.) Besser

Os sapinhos do reino vegetal não coaxam nem têm patas, mas pelo menos são verdes. Os nomes comuns das plantas, quando os há genuínos, conseguem ser tão misteriosos como certos nomes científicos. Com um pouco de imaginação, lá se consegue engendrar uma explicação mais ou menos plausível mas sem qualquer base segura. Assim, algumas plantas do género Spergularia dão-se bem em habitats salobros de estuários ou de rias - ou seja, naqueles lugares atraentes para anfíbios a que costumamos chamar sapais. E que haja sapinhos num sapal parece quase uma necessidade. O maior óbice a esta pseudo-explicação é que as espécies mais comuns do género (como a Spergularia purpurea) preferem lugares secos, às vezes pisoteados, e não têm especial apetência pelo sal.

Um sapinho que gosta mesmo de água com sal é a Spergularia marina que ilustra este texto, fotografada no início de Junho na Barrinha de Esmoriz. O epíteto marina já denuncia, aliás, a sua preferência por habitats costeiros. Para dificultar a vida ao amador de botânica, não é esta a única Spergularia que surge em prados salinos e em juncais de beira-mar: uma outra não menos frequente nesses lugares é a S. media, sendo até habitual encontrá-las juntas. Uma olhada às fotos desta última convence-nos que distingui-las não é trivial, como aliás seria de esperar num género tão uniforme como este. Mas não é tarefa impossível: se atentarmos no aspecto geral da planta, a S. marina é mais grácil, com caules mais finos e flores mais pequenas do que a S. media. Não havendo oportunidade de as observar lado a lado, este critério comparativo de pouco nos serve. Aí socorremo-nos de um outro critério mais objectivo, mas que talvez exija o uso de lupa (ou de um par de olhos bem afinados): a Spergularia marina tem um número variável de estames por flor, em geral seis ou menos (confira nas duas últimas fotos), ao passo que na S. media as flores nunca têm menos que sete estames e quase sempre têm dez (veja esta foto).

Já que o método da contagem se revela, neste caso, tão bem sucedido, eis mais um exemplo da sua aplicação. O nome Spergularia provém de Spergula, e informa-nas que estes dois géneros são semelhantes. E são na verdade tão próximos que alguns autores até os consideram sinónimos. A Spergula arvensis, de flor branca, é presença habitual em pousios ou na orla de campos de cultivo. Não é porém a cor das flores que separa os dois géneros, pois também no género Spergularia há espécies de flor branca (lembremos a nossa bem conhecida Spergularia azorica). O segredo está no número de estigmas, que são aqueles apêndices terminais do carpelo (parte feminina da flor) que recebem os grãos de pólen. Na Spergularia são três os estigmas (última foto acima e também aqui), enquanto que na Spergula eles são cinco (veja aqui).

8.11.16

Trifloricos

Depois de alguns anos de passeios botânicos, entendemos agora melhor as associações entre plantas a que se referem, em latim, os artigos científicos, e aprendemos a valorizar o tipo de solo que elas preferem, ou exigem, por ser esse um indicador fiável para as encontrarmos. Por isso, decidimos consultar uma lista de geossítios afamados do nordeste do país e visitar alguns dos afloramentos calcários que dela constam. Em Macedo de Cavaleiros, os que não são pedreiras desactivadas talvez tenham menos interesse para os geólogos, por esconderem pormenores da rocha, mas são os de maior potencial para quem quer ver plantas. Lembram os anfiteatros esbranquiçados das serras de Aire e Candeeiros, também eles quase sem flores em Novembro. E, como prevíramos, ali estavam muitos exemplares de Spiranthes spiralis. Ao lado, num talude de solo bem drenado, soalheiro e virado a sul, avistámos, já em fim de ciclo, exemplares deste raro Erigeron.

Erigeron acris L.

Neste género, conhecíamos os floricos rasteiros dos muros (o mexicano E. karvinskianus) e o fantástico E. alpinus que vimos em prados de montanha na Cantábria. O das fotos é anual, ocasionalmente bienal ou mesmo vivaz; em cada Outono, o talo rugoso e solitário, de uns 40 cm de altura, tinge-se com um atraente tom púrpura. Nas inflorescências, com cerca de 18 mm de diâmetro e de pés altos, notam-se as «pétalas» pequenas e de cor lilás dos numerosos florículos externos; os do disco central, em contrapartida, dão uma coloração amarela ao conjunto. Vista de longe, esta combinação de cores parece azul, daí a designação comum inglesa, blue fleabane. E se observarmos melhor os capítulos florais, notamos um terceiro tipo de florículos, com os papilhos que mais tarde serão os pára-quedas dos frutos. Formam um anel, que se nota bem entre o bordo e o centro da inflorescência na segunda foto. Por esta peculiaridade, estas plantas já estiveram no género Trimorpha.

A floração decorre de Junho a Setembro. A par das associações vegetais e do tipo de habitat, este é mais um parâmetro a ter em conta aos programar os seus passeios -- ou terá de os repetir no ano seguinte, como nós, para obter fotos mais expressivas.

1.11.16

Novas azedas


Rumex intermedius DC.

Já se sabe que o valor de mercado de um produto aumenta com a raridade, e que aquilo que é desdenhado por ser abundante num certo país ou região pode ser valioso e cobiçado noutras paragens. Consideraçôes análogas guiam-nos muitas vezes no turismo botânico que praticamos. Nas grandes extensões do centro-oeste do país dominadas por substratos calcários, encontramos com facilidade muitas plantas (entre elas um grande número de orquídeas) que, por falta de habitat apropriado, se fazem escassas ou ausentes no resto do território. Toca então de procurá-las nesses lugares improváveis, não porque ganhemos dinheiro com isso, mas porque o achado se torna mais gratificante. Ressalve-se que essa procura não é inteiramente arbitrária: se uma planta só se dá mesmo em calcários, seria tolo querer vê-la em afloramentos xistosos. Mas o fogo primordial misturou de forma caótica os ingredientes de que o planeta é feito, fazendo surgir ilhas calcárias em mares (sólidos) de xisto ou granito. São essas ilhas, espalhadas aqui e ali pelo nordeste transmontano, que gostamos uma vez por outra de visitar em busca de surpresas.

As minas de Santo Adrião, em Vimioso, são dos maiores afloramentos calcários de Trás-os-Montes. Encerrada a pedreira, já nada parece ameaçar os azinhais que, durante anos, foram sendo abocanhados pelo avanço da exploração. Apesar das feridas, o que sobrou, espalhado por dois ou três montes e atravessado por dois ribeiros, é um bosque de árvores maduras que impõe respeito, com mais de 3 km de comprimento e uma área total que ultrapassa 1 km^2. Sob a copa ampla das azinheiras ou aproveitando as clareiras das zonas mais pedregosas, o coberto arbustivo e herbáceo é rico e condimentado com aquelas espécies que denunciam o solo alcalino. Além das orquídeas (duas delas muito raras) e da sempre sedutora Leuzea conifera, aparece uma azeda (género Rumex) que se destaca pela inaudita elegância. Quando com ela deparámos, e ainda sem lhe poder dar nome, soubemos logo que era a primeira vez que a víamos. Alta, de quase 1 m de altura, haste fina e ramificada, inflorescência como uma nuvem tocada pelo pôr-do-sol, folhas sagitadas, estreitas e compridas como lanças.

Consultados os manuais, concluímos tratar-se do Rumex intermedius. Tem certa preferência por calcários, mas não mantém com eles uma relação de exclusividade. Apesar de muito espalhado no país vizinho, é escasso em Portugal e, como informa o mapa de distribuição no Flora-On, encontra-se sobretudo no Algarve. A Flora Ibérica sublinha essa preferência pelo sul, assinalando-o apenas em quatro províncias: Estremadura, Algarve, Alto e Baixo Alentejo. O salto para Trás-os-Montes, província que agora se acrescenta à corologia da espécie, é considerável. Como chegou ele àquela ilha calcária transmontana sem usar, que se saiba, os calcários do centro do país como trampolim? Veio certamente de Espanha, pois Portugal não é uma ilha e estamos todos embarcados na mesma jangada de pedra.

25.10.16

O sol na cascalheira

No acesso ao Cabeço das Flores e à praia do Zimbralinho, na ponta oeste da ilha de Porto Santo, nota-se logo com alguma estranheza o solo amarelo farinhento. Feito de areia com fragmentos de conchas e algas, esfarela-se ao mais leve toque, desabando com a trepidação causada pela passagem de veículos. Não fosse a chuva miúda, afinal não tão rara nesta ilha, sairíamos dali como padeiros no fim de uma fornada. Estamos num dos mais famosos geossítios da ilha, com indícios de vulcanismo submarino e habitats movediços, onde a erosão é preocupante apesar de ali terem sido plantados muitos pinheiros-de-Alepo (uma espécie resistente ao vento e à maresia com origem na região mediterrânica e descrita a partir de exemplares sírios).


Porto Santo: plantação de pinheiros-de-Alepo (Pinus halepensis Mill.) no Zimbralinho

Prossigamos até ao topo da falésia. Com o mar azul-turquesa ao fundo, começa ali uma escadaria íngreme que nos levaria a uma pequena enseada. Porém, a impedir-nos a descida está um guarda vigilante. Diz-nos ele que, naquele dia, não é permitido descer à calheta pois há uma equipa a preparar a temporada balnear que se avizinha. Onde? Ali, no cabeço, vê? Estão a soltar as pedras mal presas, as que não tardariam a tombar dos taludes. Uma vez caídas, restará uma casca bem segura que só será um perigo daqui a uns dois anos, altura em que é realizado um novo descasque.



Restou-nos recuar e procurar plantas cobertas de pó nos recantos das rochas do caminho. E lá estava, refastelado naquele ambiente seco e arenoso, um Heliotropium encimado de flores de miosótis brancas com um centro amarelo, como é usual neste género. Mas a aparência geral da planta destoava do que conhecíamos, fosse pela inflorescência mais densa ou pelas folhas crispadas, com margens revolutas, onduladas e ligeiramente crenadas. Julgámos tratar-se do H. europaeum, espécie anual frequente em Portugal, tão incomodado como nós com aquela argila calcária fina e salgada. Mas não. Trata-se de outra espécie de Heliotropium, perene e por vezes lenhosa, nativa de África, da Península Arábica, da Ásia, e das ilhas de Porto Santo e das Canárias.



Heliotropium ramosissimum (Lehm.) Sieber ex DC. [sinónimo: Heliotropium crispum Desf.]

Das cerca de duzentas espécies conhecidas neste género, uma é naturalizada e duas são consideradas espontâneas na Península Ibérica: o H. europaeum e o H. supinum.




Heliotropium supinum L.

Ao contrário da espécie de Porto Santo, o rastejante H. supinum precisa de humidade no solo e aprecia margens pedregosas de rios asseados onde se espraiar. Como as do rio Sabor que escaparam à nova barragem.

18.10.16

O que comem as borboletas


Rumex acetosella L.

Estas azedas pouco devem à beleza convencional das flores de jardim, mas nem por isso são modestas ou acanhadas. Onde haja solos secos e ácidos, elas não tardam a responder à chamada, intrometendo-se muitas vezes como hóspedes indesejáveis em campos de cultivo. Em ambientes mais naturais, são presença quase constante em afloramentos xistosos ou graníticos. A floração, que se prolonga de Março a Agosto, exibe o vermelho vivo de quem gosta de se fazer notada, embora individualmente cada flor seja insignificante.

De origem euro-asiática, mas actualmente de distribuição cosmopolita, o Rumex acetosella é uma planta perene, dióica, rizomatosa, capaz de se reproduzir por estolhos e por isso não raro ocupando vastas áreas. As hastes podem por vezes ultrapassar os 40 cm de altura, mas em geral ficam-se por bastante menos. As folhas são pequenas, embora de pecíolo comprido, e distintamente sagitadas (ou seja, com dois lóbulos basais pontiagudos e divergentes). São aliás as folhas (e, para os observadores mais pacientes, a morfologia das flores) que permitem distinguir o R. acetosella do R. bucephalophorus, uma outra azeda muito disseminada e de pequeno tamanho, com inflorescências igualmente avermelhadas mas de folhas não sagitadas. Outro dado a ter em conta é que, pelo menos em Portugal, o R. acetosella não costuma frequentar areais costeiros, habitat onde o R. bucephalophorus pode ser pontualmente abundante.

Não haverá, na perspectiva egoísta da humanidade, nada de bom que se possa dizer deste Rumex? Como sucede com a generalidade dos seus congéneres, as folhas, que têm um travo ácido, podem quando tenras ser consumidas em saladas. E, se gosta de ver borboletas a esvoaçar, fique a saber que uma borboleta bonita como esta depende exlusivamente, no seu ciclo de vida, de plantas do género Rumex, entre elas avultando o R. acetosella.

15.10.16

Pequenos remédios

Propomos-lhe hoje que comece por desenhar um pequeno traço fininho e vertical ao fundo de uma folha de papel, e que na ponta de cima do traço coloque dois outros traços um pouco menores a formar um V. Tem agora à sua frente um Y. A cada uma das duas pontas superiores deste Y, junte agora um novo par de segmentos em forma de V. Repita esta operação umas dez vezes. Obterá uma figura que, apesar do curto talo inicial e dos minúsculos tracinhos que foi acrescentando, ocupa uma boa porção do papel. Se em cada nó assentar duas pequenas folhas opostas e sésseis, e no topo do desenho algumas flores cor-de-centáurea de quatro ou cinco pétalas enfeitadas com um dentinho no ápice, terá um esquema fiel da planta que hoje aqui mostramos.



Exaculum pusillum (Lam.) Caruel

Esta estratégia de ramificação nota-se em plantas que, por habitarem prados temporariamente encharcados, precisam de evitar demasiada exposição à humidade das folhas e das flores; ou naquelas plantas com flores diminutas a quem convém aumentar a visibilidade das cimeiras de flores, como acontece no género Euphorbia. É um estratagema eficiente e barato pois, sem crescer demasiado, o que gastaria tempo (que falta a plantas anuais) e muita energia e nutrientes (que não abundam em solos arenosos), basta à planta organizar algumas poucas folhas e ramos de tamanho reduzido (pusillum) num arranjo mais favorável.

Há uns anos procurámos na serra do Açor esta única espécie de Exaculum, mas sem sucesso. Se reparar, a distribuição conhecida desta espécie em Portugal, embora se afirme na Flora Ibérica que vai do Algarve ao Minho, parece evitar o norte do país, mais próxima de nós. Por puro acaso, vimos no fim do ano passado uma população numerosa nas margens da lagoa da Pipa, mas já sem flores. Este ano voltámos ao Ribatejo em Julho e em Setembro e, além da Pipa, foram várias as lagoas em cujas margens detectámos este emaranhado típico dos raminhos de Exaculum.

O Exaculum pusillum é uma espécie anual que ocorre no sul e no oeste da Europa e no norte de África, mas, por ocupar uma área global restrita e muito fragmentada, em habitats vulneráveis ou em declínio, foi incluída com o estatuto de "quase ameaçada" na lista vermelha da IUCN para a flora em risco.

11.10.16

Ouro em pó

Uma das obrigações do turista em São Miguel é, pelo menos uma vez, tomar banho nas águas sulfurosas e tépidas da Caldeira Velha. Não será bem uma obrigação, já que pode fazer o mesmo no parque das Furnas, mas a Caldeira Velha é um lugar mais recatado, tanto por ter entrada paga como por ser afastado das povoações. Há uma fonte de água escaldante, capaz de cozer qualquer incauto que nela mergulhe, mas que logo depois se mistura com a água fria de um ribeiro para alimentar várias piscinas naturais a uma temperatura tão deliciosa como a do banho lá em casa.

Desde a entrada até às piscinas, são muitos os avisos aos visitantes para não saírem dos caminhos e não pisarem ou danificarem a vegetação. Quem ignora as indicações é imediatamente admoestado pelos vigilantes que patrulham o recinto. Justificar-se-á tanta preocupação por estarmos num refúgio de espécies raras da flora açoriana, que importa pôr a salvo das tropelias dos visitantes? O coberto vegetal, infelizmente, não merece tal desvelo, dominado que é por plantas ruderais e pelas mesmas exóticas invasoras a que nos habituámos. Sim, a colecção de fetos ou afins (Dryopteris azorica, Diplazium caudatum, Culcita macrocarpa, Palhinhaea cernua) é valiosa e atraente, mas não chega para disfarçar o desmazelo no controle da vegetação infestante. Um pífio "jardim de endémicas", em estado de completo abandono, com uma dúzia de árvores que nunca hão-de crescer, algumas já secas, esconde-se envergonhado num canto. Será tudo isto resultado da falta de pessoal? Há com certeza falta de gente qualificada ou de quem saiba dirigi-la, mas, tudo somado, vimos umas 20 pessoas a trabalhar: na bilheteira, na vigilância, nos balneários, ou até a varrer as folhas secas do chão.




Pityrogramma calomelanos (L.) Link var. austroamericana (Domin) Farw.

Se o problema da Caldeira Velha fosse a penúria orçamental, talvez o pó dourado que recobre o verso das folhas do Pityrogramma calomelanos pudesse dar uma ajuda. Mas nem tudo o que luz é ouro, e fora dos contos de fadas nenhuma planta é capaz de produzir o metal precioso. Porém, mesmo que não enriqueça quem decida cultivá-lo, este feto neo-tropical, visto por trás ou pela frente, é um dos mais bonitos que conhecemos. Originário da América Central e do Sul, a sua beleza serviu-lhe de passaporte para muitas regiões tropicais e subtropicais da África, Ásia e Oceania, onde conseguiu naturalizar-se com maior ou menor sucesso. Na África do Sul, por exemplo, frequenta bermas de estrada e outros sítios perturbados e mais ou menos pedregosos na metade leste do país, em geral na proximidade de lugares habitados, não se esperando que venha a ter comportamento invasor problemático. Já na Ásia e em certas ilhas do Pacífico ele não parece ter usado de igual parcimónia, e as notícias são bem menos optimistas. Nos Açores, onde está assinalado desde 1907, foi até hoje visto em São Miguel, Faial e Terceira, mas permanece muito raro e talvez já não exista no Faial. As temperaturas moderadas do arquipélago não devem ser favoráveis à disseminação de um feto que preferirá ambientes mais cálidos. Na Caldeira Velha instalou-se junto à fonte de água quente, sobre um solo borbulhante e instável que parece a tampa de uma panela de pressão, e por entre os vapores de enxofre que nos coçam o nariz e embaciam a vista.

O Pityrogramma calomelanos é um feto de tamanho médio. As suas frondes arqueadas, que se dispõem em tufos, têm pecíolo negro, comprido, e lâminas foliares bipinadas, de formato lanceolado, com uns 40 cm de comprimento máximo (no seu continente de origem é capaz de duplicar esta marca). A sua elegância e simetria, ajudadas pela cor verde brilhante, são irrepreensíveis.

Pityrogramma ebenea (L.) Proctor

Oriundo também da América tropical, mas de presença reportada só em 1993, está naturalizado em São Miguel um outro feto do género Pityrogramma. Trata-se do P. ebenea, menos prendado do que o seu conterrâneo, com frondes desenhadas a traço mais grosso, o pó de talco (que não é talco) fazendo as vezes do pó de ouro (que não é ouro). Mesmo sem lhe espreitarmos o verso das pínulas para conferir a cor, podemos notar que as pinas têm um remate rombudo em vez de pontiagudo, e que as pinas superiores são perpendiculares à ráquis, enquanto que no P. calomelanos elas fazem com esta um ângulo agudo.

Ao contrário do P. calomelanos, o P. ebenea, que é algo maior do que o seu congénere, não parece buscar só ambientes de sauna. Vimo-lo em dois pontos a caminho da lagoa do Fogo, e é de supor que a sua expansão em São Miguel esteja apenas no início.