3.8.16

Férias


Euphrasia azorica H. C. Watson - fotografada na ilha do Corvo em Junho de 2016

Regessamos no final de Agosto


31.7.16

Malmequer de veludo



Andryala glandulosa Lam. subsp. glandulosa

No mundo colorido que por sorte nos coube, só aos gatos a luz, o contraste, as sombras e as penumbras não são imprescindíveis para verem bem as coisas. Mas demasiada luz também não nos convém, porque um tal excesso parece espalmar o que está iluminado, confundindo alguns detalhes enquanto incendeia outros. Esta limitação da nossa visão nota-se especialmente em cores claras, com o branco a exigir arte e engenho para ser bem fotografado. Com uma luz atenuada que modere os contrastes, conseguimos notar como as várias espécies do género Andryala que ocorrem em Portugal têm em comum uma penugem densa, mais ou menos longa, com que protegem folhas, caules, hastes florais e até os cálices das flores. Este é um género que aprecia, em geral, locais soalheiros, secos e pedregosos, com solo arenoso e ácido; por isso, tanto pelinho glanduloso lembra, naturalmente, os cactos e os camelos, e o modo como eles guardam água para a sobrevivência no deserto e evitam aquecer tanto quanto o ambiente.

Sítios com esta aridez há em abundância em Porto Santo, nas Desertas e até na Madeira. A espécie da foto, um endemismo do arquipélago da Madeira, colonizou facilmente as inúmeras fendas em rochas e arribas costeiras, tendo em Porto Santo subido a vários picos. De florículos dourados e uma envergadura que pode atingir meio metro, esta planta perene tem um período de floração longo, que se inicia na Primavera e por vezes se estende até Dezembro. É das mais vistosas da flora porto-santense, mas o que mais sobressai é a folhagem longa: as folhas caulinares de margens sinuosas em arranjo cerrado um pouco abaixo da panícula floral, e as basais atingindo os 25cm de comprimento e formando um saiote gracioso. Em vários pormenores, assemelha-se à espécie Andryala canariensis Lowe subsp. mogadorensis (Coss. & Bal.) Maire, do norte de África e das ilhas Canárias, que podem conhecer aqui.

28.7.16

Um voto que conta: Planta Lourinhã!

E se um viveiro municipal (neste caso o da Lourinhã) vocacionado para produzir petúnias e amores-perfeitos se expandisse e diversificasse, passando a produzir carvalhos, medronheiros, rosmaninhos, alecrins, armérias e muitas outras plantas autóctones para usar na recuperação de áreas naturais do concelho? Até a si, que nem vive perto da Lourinhã, parece uma boa ideia. Contudo, a concretização deste projecto, um dos que estão a ser considerados pelo município no âmbito do orçamento participativo local, depende de haver um número suficiente de pessoas que gostem dele e exprimam pelo voto essa preferência. Oxalá os munícipes da Lourinhã façam uma boa escolha, dirá o leitor. A surpresa é que toda a gente em Portugal pode votar, gratuitamente e sem sair de casa, e todos os votos contam por igual.
O prazo para votar no projecto Planta Lourinhã! termina já no domingo, e por isso é melhor despachar-se. Basta enviar um SMS gratuito para o n.º 4343 com a seguinte frase: OPL24 [n.º de identidade] [data de nascimento AAAAMMDD] (exemplo: OPL24 9999999 19740425). A confirmação do voto é imediata. Para mais informações, consulte esta página da Câmara Municipal da Lourinhã e a página do Facebook do projecto.

27.7.16

Tomilho, hissopo, microméria ou satureja?



Micromeria varia subsp. thymoides (Sol. ex Lowe) P. Pérez [sinónimos: Satureja thymoides Sol. ex Lowe; Micromeria thymoides]

Eis um arbusto cheio de dúvidas quanto à sua identidade. Ou talvez o problema não seja dele, mas dos botânicos que o estudaram - pois já Shakespeare lembrava que "a rose by any other name would smell as sweet". E é apropriado começar pelo perfume, que por ser débil ou inexistente impede esta lamiácea de ser tida como um tomilho, apesar de o seu aspecto geral afiançar o contrário. De facto, as suas folhas pequeninas e de margens reviradas fazem irresistivelmente lembrar as do T. carnosus ou do T. camphoratus; e o seu porte rasteiro e as suas minúsculas flores (5 a 6 mm de diâmetro) parecem, à primeira vista, cumprir todos os requisitos do género Thymus. Contudo, o défice aromático é imperdoável e, se prestarmos atenção, notamos que as flores não têm os estames e estigmas salientes que caracterizam as dos tomilhos (os dentes do cálice também são mais curtos do que é aceitável). Ainda assim, a semelhança é tão vincada que justificou o uso do epíteto thymoides na primeira descrição publicada desta espécie, por Richard T. Lowe, em 1833 (Transactions of the Cambridge Phlosophical Society, vol. 4).

Descartada a hipótese tomilho, que dizer do hissopo? Indicam as fontes consultadas que é esse o nome vernáculo dado a este endemismo do arquipélago da Madeira. Considerando que é ele frequente na Madeira e no Porto Santo e, embora sem usos culinários, exibe boas aptidões ornamentais, não custa por uma vez aceitar que o "povo" o conhece ou conheceu por esse nome. Sucede que hissopo é o nome legítimo de uma planta de origem mediterrânica (Hyssopus officinalis) que não é espontânea nem em Portugal continental (sendo-o porém em Espanha) nem nas ilhas, mas foi cultivada historicamente para fins medicinais e como erva aromática. É sabido como, confrontados com ervas, arbustos e árvores que desconheciam quando ocupavam novos territórios, os portugueses (e europeus em geral), inspirando-se em parecenças nem sempre evidentes, os baptizaram com os nomes que traziam de casa. E, há que admiti-lo, a semelhança entre o hissopo madeirense e o hissopo tradicional não é das mais conseguidas.

Explicar a oscilação entre Micromeria e Satureja, os dois géneros muito próximos nos quais esta lamiácea tem sido alternadamente incluída, obriga-nos a considerar algumas subtilezas morfológicas. De acordo com a Flora Iberica, as espécies de Satureja têm folhas planas ou dobradas longitudinalmente, e nunca apresentam as margens revolutas que são regra nas Micromeria; e há também diferenças, embora de pouca monta, no cálice (10 a 13 nervos longiudinais nas Satureja, 13 nas Micromeria) e no lábio inferior da corola (pintalgado com máculas mais escuras na Satureja, de cor uniforme na Micromeria).

Se este hissopo das ilhas parece agora firmemente estacionado no género Micromeria, já a sua circunscrição específica não logrou ainda o consenso. A checklist da flora de Portugal chama-lhe Micromeria thymoides, considera que é endémica do arquipélago da Madeira, e até a divide em duas subespécies. Outras fontes consideram-na uma subespécie da M. varia, espécie que se distribui pelos arquipélagos da Madeira e das Canárias. Chamam-lhe então, a exemplo do que se faz neste portal, M. varia subsp. thymoides, mas conservam-lhe o estatuto de endemismo madeirense; ou vão um passo adiante, como fazem os nossos amigos espanhóis, e identificam-na com a Micromeria varia subsp. rupestris, que ocorre igualmente em duas ilhas das Canárias (as restantes cinco subespécies reconhecidas pelo portal Anthos seriam endémicas de diversas ilhas das Canárias).

Seja qual for o nome, é a mesma doce ausência de perfume que alegra os olhos de quem, desde a costa até aos picos mais elevados, a vê florir na Madeira e no Porto Santo.

23.7.16

Couve de Ana Ferreira



Crambe fruticosa L. f.

Como forma de homenagem a figuras públicas merecedoras de reconhecimento, é tradição dar o seu nome a crateras na Lua, montanhas em Marte, anéis em Saturno, cometas ou asteróides. A escolha é, em geral, precedida de consultas a sábios e aturada ponderação até à votação final. Se algum desses nomes é menos conhecido, uma googlada rápida informa-nos em segundos sobre a vida, obra e mérito de uma tal pessoa. No século XV, quando os portugueses chegaram ao Porto Santo, encontraram, além do imenso areal, muitos picos, vales, rios e fontes por designar. Mas não devem ter cogitado muito sobre o assunto, decerto por falta de tempo, a julgar pelos nomes simples e fáceis de justificar que elegeram: serras de Fora e de Dentro, fonte da Areia, miradouro das Flores, Terra Chã, Zimbralinho, Morenos, picos de Baixo, da Cabrita, do Castelo, do Espigão, do Facho, ilhéus de Cima, de Baixo, de Ferro e das Cenouras. Porém, a esta lista, juntaram o pico de Ana Ferreira. Quem?, perguntará o leitor. Não sabemos quem foi Ana Ferreira (Anna na obra A manual flora of Madeira and the adjacent islands, de R. T. Lowe, publicada no século XIX), se dona do pico ou se digna de uma tal prova de veneração. Imaginamo-la, num ambiente de navegadores, aventureiros e criados, a cuidar veladamente da família, da vila e da ilha; a enfrentar os mandatários do rei em anos de seca e fome; ou a pintar demoradamente as paisagens semi-áridas de Porto Santo. Que se apresente a história verdadeira desta figura para corrigirmos esta descrição fantasiada. De caminho, que nos digam também quem foram as mulheres do cabeço de Bárbara Gomes e do pico de Juliana.

Na nossa visita ao Porto Santo, o pico de Ana Ferreira foi o primeiro que explorámos. Devagar, porque logo na base a flora suscitava ohs de espanto e justificava minucioso levantamento fotográfico. Entre as fendas de rocha, ravinas e taludes arenosos, mesmo em lugares desabrigados, via-se uma couve alta e esguia, muito florida, de folhas liradas com um lóbulo terminal grande, e algumas hastes já com frutos. Lembrava a Crambe hispanica, a única espécie deste género em Portugal continental e cujo detalhe distintivo é o arranjo dos frutos redondos como ervilhas em escadinha helicoidal, com os pedicelos curvados para cima. A C. fruticosa é um endemismo do arquipélago da Madeira, raro na ilha da Madeira mas abundante em dois ou três picos do Porto Santo, havendo também registo dele nas Desertas. Notem como as hastes florais parecem ter inflorescências terminais em panícula, mas os frutos se distribuem densamente ao longo de todo o talo, em muito maior número do que na C. hispanica. Cada fruto é uma vagem seca com uma única semente, esférica e assente num anel que a separa de um cilindro estéril, num conjunto que parece uma cabacinha de abóbora de Lilliput.

20.7.16

Velhote engraçado



Senecio incrassatus Lowe

Senecio significa velho, e é também o nome com que Lineu baptizou um género botânico da família dos malmequeres. Os papilhos brancos que coroam os frutos, ajudando-os no transporte pelo vento, fazem lembrar a cabeleira dos anciãos - dos que ainda têm alguma, entenda-se. Os mesmos frutos ou semelhantes, sobretudo os do dente-de-leão (género Taraxacum), usavam-se entre crianças para testar, com discutível fiabilidade, se o pai de uma delas era ou não careca. São muitas as asteráceas que se prestariam à mesma brincadeira, e por isso a razão de ser do nome Senecio não se afigura especialmente pertinente.

Ainda que a falha seja propositada, cumpre-nos admitir que incrassatus, epíteto específico do malmequer macaronésio hoje na montra, não se traduz por engraçado. Se quiséssemos manter a semelhança fonética sem trair a semântica, poderíamos usar o adjectivo engrossado, mas a combinação resultante seria demasiado... como diríamos... grosseira para ser usada como título. Não que fosse insólita, pois um dos efeitos mais comuns da idade, sobretudo nos homens (e especialmente visível na época balnear), é um desgracioso alargamento do perímetro abdominal. Deve porém reconhecer-se que é vulgar o fenómeno manifestar-se quando a velhice ainda vem longe, e muito antes de o cabelo embranquecer.

Richard T. Lowe, que encontrou este Senecio incrassatus na Madeira e no Porto Santo e o descreveu em 1838, chamou-lhe «gay and handsome little plant». Podemos pois deduzir que usou o termo incrassatus sem intenção depreciativa, e de facto quis apenas referir-se aos pedúnculos florais intumescidos, revestidos por brácteas ou escamas carnudas (2.ª foto). Também carnudas são as folhas mais ou menos pinatissectas, de margens revolutas. Os capítulos, que têm cerca de 1 cm de diâmetro e se dispõem em corimbos densos, têm uma parte central quase esférica composta por florículos tubulares, hermafroditas, e um anel de "pétalas" curtas, distintamente arredondadas, formado por florículos ligulados, femininos. Planta anual de tamanho muito variável, atingindo de 6 a 25 cm de altura, o Senecio incrassatus, frequente no Porto Santo ao longo do areal, surge também na base do Pico de Ana Ferreira e em outros pontos de média altitude.

Presente na Madeira, Porto Santo e Desertas, o Senecio incrassatus ocorre ainda, acreditando nalgumas opiniões recentes, em El Hierro, a mais pequena das ilhas Canárias. No entanto, a julgar por fotos como esta, esse Senecio de El Hierro não é assim tão parecido com o madeirense. Outro congénere com o qual o S. incrassatus foi por vezes confundido, mas que se distingue bem pelas inflorescências menos compactas, pelas "pétalas" mais estreitas e pelas folhas menos carnudas, é o S. leucanthemifolius, uma espécie mediterrânica que, em Portugal, aparece apenas (e muito raramente) no litoral alentejano.

16.7.16

Seisim? Sei não




Phyllis nobla L.

Phyllis, nome grego que terá sido escolhido por Lineu porque a folhagem destes arbustos, em geral glabros, lembra vagamente a das amendoeiras, é um género endémico da Madeira e das Canárias que inclui apenas duas espécies: Phyllis viscosa, exclusiva das Canárias; e, nosso assunto de hoje, Phyllis nobla, disseminada pelos dois arquipélagos e presente na Madeira e no Porto Santo. Nada menos que três são os nomes comuns registados na Flora of Madeira de Press & Short para este pequeno arbusto (até 1 m de altura) de folhagem lustrosa mas de inflorescência esverdeada e pouco chamativa: cabreira, seisim e seisinho. O segundo destes nomes, seisim, não consta de qualquer dicionário da língua portuguesa. Cabreira lá aparece, e até como nome de planta, não da Phyllis nobla mas de uma leguminosa herbácea, talvez o Scorpiurus muricatus. Quanto a seisinho, sugere o dicionário, um pouco a medo, que se trata do diminutivo de seis. Já sabemos como em Portugal as coisas de que gostamos viram coisinhas, e até é frequente um lojista dizer ao cliente que de um certo produto só sobra unzinho, mas do dois para cima nunca ouvimos um numeral ser assim acarinhado com um diminutivo. A consabida lição que extraímos deste episódio é que, pelo menos em português, os nomes comuns das plantas são uma área minada por confusões e incertezas. Tirando as árvores, uns tantos arbustos e a generalidade das plantas cultivadas, é embarcar numa ficção bem intencionada usar nomes tidos como populares para designar plantas espontâneas que o povo (essa entidade mítica) é incapaz de reconhecer.

Frequente na Madeira a todas as altitudes, a Phyllis nobla é mais escassa no Porto Santo, onde apenas a pudemos observar, em vários estádios de desenvolvimento, num talude rochoso do Pico Branco e no sub-bosque de uma plantação de ciprestes, no Pico do Facho. As folhas, que têm uns 6 ou 7 cm de comprimento e se apresentam em verticilos de três, pareceram-nos mais engrossadas nos exemplares mais jovens; as que vimos eram obtusas e estreitas, mas podem ser acuminadas e mais largas em plantas de outra proveniência. As flores, que têm cerca de 4 mm de diâmetro e estão dispostas em panículas mais ou menos piramidais de uns 10 a 20 cm de comprimento, não têm cálice, e as suas pétalas verdes apresentam-se fortemente recurvadas (ver foto). A pincelada de branco nas duas últimas fotos aí em cima é dada pelos estigmas proeminentes; na segunda e quarta fotos, vêem-se não os frutos mas os botôes florais ainda por abrir.

13.7.16

Losna prateada

Antes da vulgarização da fotografia, os botânicos que publicavam artigos com a descoberta de novas espécies tinham de se esmerar na descrição (em latim, pelo menos) de cada planta e, sempre que possível, escolher uma designação que a distinguisse claramente das demais. Com um vocabulário restrito e sem meios de laboratório decisivos, precisavam de ver demoradamente os espécimes em várias estações do ano, beneficiando ainda da possibilidade de colher alguns exemplares para herbário. Não raro, contudo, a degradação natural do material colectado dificultava a sua identificação futura. Acrescia a esse azar o facto de, com frequência, as plantas recolhidas em expedições científicas a paragens longínquas se perderem pelo caminho ou chegarem em más condições. Salvavam-se as sementes que, se germinassem, produziriam exemplares caseiros, mais fáceis de estudar. Seguiam-se então extremosos cuidados, extenuantes análises (feitas em segredo, não fosse o cientista rival publicar a descoberta primeiro), longas vigílias em jardins botânicos à espreita do nascimento da flor desconhecida, e a rigorosa tarefa do taxonomista para nomear a espécie inédita.

É neste contexto que Charles Louis L'Héritier (1746-1800; abreviadamente L'Her.) escreve em Inglaterra, e publica em França entre 1789 e 1793, a obra Sertum Anglicum. O texto reduzir-se-ia a uma lista de verbetes em latim sobre flora trazida da América do Sul por Joseph Dombey (com autorização da coroa espanhola) e outra cultivada nos Kew Gardens, não tivesse o destino juntado, em Paris, o botânico L'Héritier e o pintor Pierre-Joseph Redouté (1759-1840). A partir do segundo volume, cada nova espécie desta obra é ilustrada em página inteira por este talentoso ilustrador, que ganhou fama e prestígio precisamente pelos seus trabalhos botânicos. Os seus desenhos, ao contrário das amostras de herbário, permanecem viçosos e deslumbrantes ainda hoje. A prancha 28 do Sertum Anglicum mostra o endemismo da Madeira, Porto Santo e Desertas de que vos falamos hoje.




Artemisia argentea L’Hér.

As numerosas espécies do género Artemisia, com flores minúsculas desprovidas de pétalas mas com invólucros robustos, têm folhagem perfumada, embora não tanto como a das dunas primárias no litoral, que poderá reconhecer nas suas idas à praia. Algumas espécies são lenhosas, e é esse o caso da planta madeirense das fotos (conhecida no arquipélago como losna), que vimos em abundância em locais rochosos perto do mar e nos picos de Porto Santo. Trata-se de um pequeno arbusto perene, com as folhas revestidas por um tomento branco-acinzentado que lhes confere um aspecto prateado. Note como as folhas são triangulares e lobadas, não tão coriáceas como as da A. campestris, e como formam uma ramagem solta que, mesmo depois de seca, se mantém algum tempo sem cair, decerto para dar resguardo à planta nos meses mais quentes, quando exposta em rochedos e areais costeiros. A inflorescência é uma longa panícula com capítulos pendentes, parecendo estar todos virados para o mesmo lado. Em cada capítulo de flores amarelas, as hermafroditas enchem o centro do disco, as femininas estão no bordo. Há registo na Flora of Madeira, editada por de J.R. Press e M. J. Short (The Natural History Museum, London, 2016), de uma população no ilhéu de Cima com corolas púrpura.

9.7.16

Preto & branco




Helichrysum melaleucum Rchb. ex Holl

As flores cortadas têm vida efémera. Ou melhor, nem sequer têm vida a partir do momento em que são cortadas, mas podem manter um aspecto viçoso durante mais ou menos tempo. Em geral menos, pois as flores de véspera já mal disfarçam a necrose e, em vez de celebrarem a vida, são uma lembrança da mortalidade. Para quem não queira dar-se ao trabalho (e à despesa) de as mudar diariamente, há flores de uma longevidade notável, capazes de se manterem bonitas muito depois de secarem. Entre elas contam-se várias espécies de Limonium (o mais popular nas floristas é o L. sinuatum) e de perpétuas. Estas últimas são conhecidas em inglês como everlasting e pertencem ao género Helichrysum, da família das asteráceas. Os seus capítulos florais, em geral dispostos em corimbos, são dotados de brácteas involucrais escariosas, com uma textura de papel quebradiço, que mantêm a forma por longo tempo mesmo depois de estarem secas.

Em Portugal continental há duas perpétuas muito comuns de norte a sul, ambas de vistosa floração dourada: uma nas areias do litoral (H. italicum subsp. picardii) e outra em matos secos no interior (H. stoechas); a primeira de floração prolongada (para dar aos veraneantes uma oportunidade de a admirar) e a segunda, prudentemente, a despachar a floração entre Maio e Junho, antes da canícula estival. Apresentam um aspecto semelhante, uma cor entre o glauco e o prateado, com as mesmas folhas lineares e de margens revolutas.

Precisamos de ir à Madeira para entender como as perpétuas podem ser versáteis: o arquipélago é morada de nada menos que quatro espécies endémicas de Helichrysum, parecidas umas com as outras mas divergindo claramente das perpétuas continentais. Três delas são exclusivas da ilha da Madeira e uma quarta (H. melaleucum, hoje no escaparate) é partilhada com o Porto Santo. Todas têm folhas largas, lanceoladas, decorativas, e capítulos grandes ostentando algumas inovações cromáticas. Na perpétua do Porto Santo - a mais corpulenta das quatro, atingindo um metro de altura - os florículos são negros, com anteras amarelas, e estão envoltos por brácteas esbranquiçadas, tingidas de rosa. É aliás ao contraste entre o branco e o negro que faz alusão o epíteto melaleucum: mélas significa "negro" em grego antigo, e leucum significa "branco". Seria talvez mais apropriado, face ao que se vê nas fotos, falar do negro e do rosa. Acontece que as perpétuas do Porto Santo não são exactamente iguais às da mesma espécie na Madeira, precisamente por causa das brácteas rosadas (as da Madeira têm brácteas brancas) mas também porque as suas inflorescências se apresentam em cimeiras menos compactas. Foi com base nestas diferenças que, numa nota intitulada Subsídios para o conhecimento da Flora do Porto Santo, publicada em 2011 na revista Silva Lusitana, Roberto Jardim e Miguel Sequeira propuseram o reconhecimento de uma nova subespécie, Helichrysum melaleucum subsp. roseum, englobando todas as populações da perpétua do Porto Santo e distinta da subespécie nominal, esta apenas da ilha da Madeira.

Ainda que as obras de referência consultadas refiram o contrário, o Helichrysum melaleucum não é nada raro no Porto Santo - ou então terá beneficiado de assinalável recuperação em anos recentes. Aparece em quase todos os picos e é mesmo abundante no Pico do Castelo, onde, nas encostas íngremes e secas, divide o protagonismo com a figueira-do-inferno.

6.7.16

As máscaras de Lobélia



Wahlenbergia lobelioides (L. f.) Link

Não é surpresa, dada a proximidade destas ilhas do continente africano, que parte da flora do arquipélago da Madeira tenha essa origem. Mas a nós, habituados a uma única espécie de Wahlenbergia (a delicada e pequenina W. hederacea, de talos filiformes, que aprecia solos húmidos, turfosos e sombra, e é nativa do oeste da Europa), causa alguma estranheza encontrar em fendas de rochas expostas ao sol, ou em terreno arenoso e árido, outra espécie de Wahlenbergia que até se parece com uma Lobelia (género de que também só temos uma espécie nativa).

É verdade que as flores são parecidas, ambas campanuladas, solitárias e com pedicelos longos, embora numa das espécies as corolas sejam sempre de cor azul-pálido e na outra costumem ser brancas ou de cor lilás. E deve ser esta parecença que de imediato coloca a planta das fotos no género Wahlenbergia. Mas prestemos também atenção às diferenças. A W. hederacea é uma herbácea (perene) glabra, de folhas frágeis cordadas na base, palmadas e pediceladas, que forma tapetes cerrados quando o habitat lhe é favorável. A W. lobelioides, pelo contrário, tem uns pelitos nos caules e porte erecto, com as hastes florais pendentes; as folhas são coriáceas e sésseis, e não vimos mais do que meia dúzia de plantas juntas.

Desta espécie há registo de três subspécies: a W. lobelioides subesp. lobelioides, endémica da Macaronésia, que é planta anual, ocorre na ilha da Madeira, Porto Santo, Selvagens, Canárias e Cabo Verde, e que fotografámos em vários picos do Porto Santo; a W. lobelioides subesp. riparia, da região ocidental da África tropical; e a W. lobelioides subsp. nutabunda, do noroeste de África, região mediterrânica e sudeste de Espanha (estas duas últimas mais hirsutas do que a subespécie madeirense).

E afinal qual é o papel nesta descrição das lobélias? Reconhecemos facilmente as plantas do género Lobelia pelas flores zigomorfas, com dois lóbulos da corola a formar umas orelhas, bem separados dos outros três. Ora, este detalhe morfológico não surge nas flores da Whalenbergia lobelioides, e por isso é legítimo concluir que o epíteto lobelioides não se refere à semelhança das flores. Atentemos então para as folhas, o cálice das flores e o porte. Não há dúvida, pois não? Há que reconhecer que, nestes aspectos, a afinidade entre a planta de Porto Santo e a Lobelia urens é notória. Claro que à análise do especialista não terão escapado outros pormenores, mas nós já nos damos por satisfeitos com esta justificação para o nome desta campanulácea.

1.7.16

A erva que queria ser árvore




Plantago arborescens Poir. subsp. maderensis (Decne.) A. Hansen & G. Kunkel

Um Plantago convencional tem uma arquitectura fácil de reconhecer: de uma roseta de folhas basais, muitas vezes comprimida contra o solo, saem hastes simples rematadas por espigas florais não muito vistosas, em que apenas sobressaem os longos estames e o amarelo das anteras. Na flora de Portugal continental, o Plantago afra é o único que foge, e de modo vincado, a este figurino, com folhas opostas distribuídas ao longo de hastes várias vezes ramificadas. No Porto Santo, que afinal é mais perto de África do que da Europa, o P. afra não aparece, mas faz-se substituir pelo Plantago arborescens, que levou a sua heterodoxia ao ponto de se transformar em arbusto. Arbusto rasteiro, é verdade, mas de ramificação intrincada e de hastes indubitavelmente lenhosas. A energia gasta para fortalecer o corpo não lhe permitiu cuidar das flores: as espigas (última foto em cima) são abreviadas e esféricas, ainda mais sumárias que as do P. afra. O que até se compreende, pois um arbusto que dura muito anos não precisa de reproduzir-se com a mesma urgência de uma planta anual. Pesem embora as diferenças de tamanho e fenologia, a afinidade entre o P. arborescens e o P. afra justifica que, dentro do género Plantago, ambos integrem o subgénero Psyllium; houve já propostas para promover Psyllium a um género autónomo, mas essa ideia, embora pareça justificar-se do ponto de vista morfológico, não terá sido corroborada pelos estudos genéticos.

Surgindo no Porto Santo a altitudes variadas, o Plantago arborescens é um arbusto mais encorpado nos picos ventosos do interior da ilha do que nas falésias litorais. Os exemplares que vimos na subida para o Pico de Ana Ferreira quase atingiam um metro de altura, formando moitas bem visíveis à distância; na Fonte da Areia, já no litoral, não ultrapassavam os 15 ou 20 cm; além disso, os primeiros eram quase glabros (2.ª foto) e os segundos pubescentes (5.ª foto). Face a estas variações, é mais fiável identificá-lo pelo recorte das folhas e das espigas do que pelo aspecto geral. Assim, as folhas são lineares, pulverulentas, com um máximo de 7 cm de comprimento e tendência a acumularem-se nas extremidades dos ramos; e as espigas, que têm cerca de 1 cm de diâmetro, são formadas por quatro a seis flores.

O P. arborescens é endémico da Macaronésia, exclusivo da Madeira e das Canárias. Considera-se dividido em duas subespécies, distinguindo-se a subsp. maderensis (apenas do arquipélago da Madeira) da subespécie nominal (apenas das Canárias) por esta última exibir alguns pêlos longos nas folhas e nas hastes.